A diferença entre a pobreza e a miséria está nas flores que estão, ou não, na porta da casa.   A diferença está na dignidade de vida.

O meu trabalho por vezes me leva para dentro das casas das pessoas. Ali, logo na entrada, depois do olhar desconfiado ao ouvir o “ô de casa”, é comum aparecer uma cara surpresa de quem está acostumado a ser invisível.

“Você veio aqui para me ouvir”

No interior de Minas as casas têm alpendre: uma antessala, meio dentro, meio fora. É um lugar intermediário. É onde as bestagens precisam ficar de fora, ou dali ninguém passa. Foi em um alpendre que, certa vez, o avô, sem que eu dissesse nada, mas por algum motivo parecer que eu tinha alguma importância, tentou convencer a neta, de uns 4 anos, de que ela deveria ir embora comigo.

“Vai com a moça, é a sua única chance de estudar”

Ela apertou com força a boneca que tinha nas mãos. Eu coloquei nos olhos todo o amor que eu tinha. Saí dali correndo, e não sei se quem chorou mais, se foi ela ou se fui eu.

Se o convite é para adentrar na sala, é certeza de belezuras. Fotos aquareladas dos avôs na parede azul ou verde, quase sempre com uma rachadura ao lado do rosário. Pistas do passado e das mensagens que devem permanecer através dos tempos.

Se tem violência doméstica ela também está ali na sala, feito um quadro da santa ceia, vigiando quem passa, velando o silêncio.

Se chamam para a cozinha, é lugar de fartura. Ali a intimidade está exposta, tão depenada quanto as galinhas que vão para a panela. A estante com os paninhos bordados, a lenha, os cheiros dos temperos, a fuligem de fumaça, os sabores, os risos, a família reunida. Ali é dito o que da porta pra fora vai depender.

Mas o meu lugar preferido é o quintal. As galinhas, a horta, os cachorros que se coçam, as ervas, a água que corre, as frutas no pé.

SE O QUINTAL TEM A HARMONIA DA NATUREZA, AQUELAS ALMAS ESTÃO EM PAZ.

A vassoura de alecrim, a lenha cuidadosamente amontoada, as ervas que temperam e por vezes benzem. O consumo um tanto bom do que a natureza dá. A compostagem do lixo. Minhocas, húmus, renascimento do que era podre em vida. O equilíbrio entre as espécies que estão na horta.

A agrofloresta é uma tecnologia milenar.

Vi um senhor fazendo agrofloresta no quintal. Ele não tinha estudo, não sabia das formalidades e dos livros, mas observava a natureza e era um atento aprendiz. Ele via em cada semente e em cada muda uma pulsação de vida, e dava a ela um lugar adequado para crescer em paz, com água e luz. Era como um anjo, um caboclo, um iluminado servo da rainha mãe natureza.

Hoje tanto se fala em salvar o mundo, em regenerar o planeta. Sim, nós erramos a mão, erramos a rota, fomos guiados pela soberba.

Pois a resposta de como será salvo o planeta passa pelos quintais de Minas Gerais.

O quintal é onde se faz o que ninguém está vendo. É a verdade do ser. É onde as crianças brincam e as frutas caem de maduras. É onde fazem fogueira nas noites frias. Onde moram os mistérios desvendados dos guias e ancestrais. É onde corre um riachinho, que traz vida e histórias, e leva tudo para adiante.

O QUINTAL É O COMEÇO DO INFINITO.

Se os quintais são pujantes, há esperança de vida.

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